quarta-feira, 31 de agosto de 2011

À ESPERA DE DEUS


À ESPERA DE DEUS

Com os olhos borbulhando
Sem conseguir evitar olhar
Espero, noite após noite
Que Deus habite este lugar

Um Deus amplo, acolhedor
De braços longos e quentes
Que abrigue toda essa gente
Faiscando  de pavor

O medo de estar vivo
O medo de estar sóbrio
O medo de mais um dia
O medo de todos os dias

Em tão rápido passar
Apenas riscam a vida
Crendo-se sempiternos
Correndo a coxia

Esperando Deus em sua chegada
Fico, o parvo, observando
Os homens pela madrugada
Como tochas se apagando

O velho que puxa a carroça
A mulher que serve o café
A moça na janela do trem:
Rosto emoldurado em ferro

Fumaça, sonhos e aço
Eis a salvação
Todos à procura de abrigo
Aguardando revelação

Com seus instrumentos tortos
Vão construindo suas certezas
Rolam dados em busca da sorte
Que não os quer por consorte

Canso-me de esperar por Deus
Observando meu descrédito
Ele sequer se ergue
Quando meu coração se verga

Quatro cadeiras na casa
O homem se senta
Separado do ser;
A razão e a emoção descansam

Na cama, apenas o corpo
Peso, volume,  massa
Guardado por seus apetrechos
Sentados, insonos, de guarda

Sem êxtase, o gozo jorra
Para que a vida tenha forma
Antes que o cansaço me vença
Ofereço-me a Deus em oferenda.

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