12 DE DEZEMBRO
Na boca podre da madrugada
Vigio as palavras
No pressuposto de vida ao clarear
Espreito as palavras
Espreito no escuro, sem abismar
Os cantos sujos e rudes
São homens e mulheres em ebulição
Família sem estado, elos
Ajuntada pela opressão-diversão
Dos parques industriais
(esgotos municipais, latrinas
Estaduais, dejetos federais:
Éramos nós entre muitos cavalos
No casarão o policial sobe
Para o quarto do homossexual:
Bichos e mendigos em profusão
Nós entre muitos cavalos
No parque industrial)
Na madrugada
Assassino a negra poesia
Nada rendilhada por extratos burgueses
Beijos da moda, abraços perfumados
Uma poesia buscando verdade
Mesmo sem Deus
(lembra inocência perdida
Lambe-lambe, vitrola de camelô
É sempre festa a tristeza
Festa sem alegria
Abandono, patifarias)
Na boca, poesias de Deus
Sussurros escorrem pelo corredor
Amor doentio, promiscuo
Carne em ardor: amor?
Redobro a vigília abalada
Pela noite chamuscada
Por fogo lento e pavoroso
Que arde nas entranhas
Convocando a luta sem tréguas
A todos assemelhado
Emboloro meu hálito
Entre os dos muitos cavalos
Que hão de carregar
Todos os dias juvenis
Para dentro do forno
De todas as memórias
Com olhos molhados
Leio manchetes de uma greve perdida
Homem sem partidos, sem herança
Acumulando historias sem lembrança
Sem esperança de ser homem ou alguém
Ansiamos eletrodomésticos, cosméticos
Prazerosos, limpas ejaculações duradouras
Crianças sadias
Com o veneno aguçado, dosado
Embrenho pela noite sem fadiga
Despertei em mim alguém que dormia
Sou novo, outro, animal asselado
Homem sem poesia
Com o pensamento na greve
Única e geral
Pensando em liberdade mesmo que vil
rilhando de raiva e mutismo
Desço à rua e vou à Central do Brasil
Soldados armados defendem a tirania
Aguardando o inimigo: o povo.
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