quarta-feira, 31 de agosto de 2011

21


21

A criança sentada sob amendoeiras
Deliciando-se com chuva de folhas secas
Desmaiando aos seus pés
Enquanto observava heróis que erigiam
Mais um troféu de granito e vidro
Entre suor, arquejo, ruído e gritos.

Os últimos dias de verão
Passeando na terra
Levando e trazendo imagens
Que nunca mais seriam vistas

As folhas. Os homens,
O totem inacabado. O totem:
Premio para os inventores
Da interminável guerra

Minha alma, sã e benevolente
Disposta a crer nas coisas
Mais surpreendentes
Descansava recostada
Na amendoeira gigante
Inebriada com visões estonteantes

Meu espírito, que mais tarde seria mordaz
Deliciado com toda aquela paz;
Eu, aprendendo a ver a terra
Ouvindo com a planta dos pés
Os segredos que nela se encerram

Nesse tempo meu Deus era sujeito gentil
Que volta e meia bebia de um barril
Depois, amarrou a cara
Não mais comia em minha mesa
Não acreditava na terra
Não sentia sede nem nada
Perdendo, diga-se assim,
Toda a sua delicadeza
De figura boa, bela
Compreensível e estimada

As folhas acabaram de cair
Todas elas
O verão partiu para longe da terra
Eu, quem pensava nunca mudar,
Vi-me enfrentando noites no mar.
A beleza de Deus se perdeu nas ondas
Aprendeu a falar besteira
Beber a noite inteira
A viver na zona
Como se não houvesse mais nenhum lugar
Onde houvesse amendoeiras

Além de mordaz, espírito sarcástico
O sol de verão fez-se cáustico
As pessoas não mais marcavam presença
Apenas iam e vinham, em indecências
Que ao meu Deus encantavam.
Das pessoas, fui aprendendo a ver-lhes
O outro lado que teimavam em trazer
Guardado, escondido e chaveado
A sete chaves; mil mentiras bem trancadas

Minha alma já era bem sagaz
Inventando guerra onde queria paz
Não mais descanso à tarde
Às vezes, saudosa deitava-se no bico da proa
Eu a via lá, à toa, imaginando  sol quente
Na noite solitária do mar
Recordando dias já idos
Quando podia descansar
Ver, sentir e amar vapores exalados
pelas árvores, da terra na chuva.
Agora: maresia, álcool, cio
Planos-enganos, suor de soldado
Preocupado em trazer limpo o fuzil

O barco, sulcos profundos, à vante
Deixando para trás, cada vez mais
Um verão, amendoeiras, cigarras
Menino enfeitiçado
Que naquele tempo desconhecia
A eterna saga dos homens marcados
Ignorando que a nau não abandona
Nunca a raça de desarvorados

Na proa, o Deus surpreendido
Ensinava-me pecados.

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