quarta-feira, 31 de agosto de 2011

ABASTECIMENTO


ABASTECIMENTO

No caminho para minha casa
passa boi, passa boiada
passam soldados, carros e lotação
passam mendigos, alfaiates
passam padres em tentação
passam prostitutas e elefantes
quando chega o circo na cidade
cheia de risos de palhaços sem solução.

No caminho para o trabalho
passa boi, passa boiada
auxiliares d'almoxarifado
engenheiros, estudantes
gerentes de bando, chefes de repartição
passam aposentados aposentados
comunistas remunerados
e muitos erros de fabricação
passa a moça da bomboniere
magra magra sem sonho de valsa
que dança com os homens
o tango de sua solidão
capitalistas descapitalizados
preocupados por vocação
tem o moço loiro que é padeiro
que faz bolos com paixão.

No caminho da escola
passa tanta gente, tanta gente
que é impossível dizer quem são.
Seus passos são tão urgentes
que se chamam apenas multidão.
Passa o trem que não tem hora
passam estudantes cheios de ilusão
de tanger essa boiada
para onde haja forragem farta
e um córrego de libertação.

Nos caminhos por onde ando
passa boi, passa boiada
passo eu em disparada
passo eu junto a manada
ruminando paz e pão.



A TUDO EU VEJO


A TUDO EU VEJO

Estive cansado.
Irremediavelmente exaurido.
Pela manhã,
Sentei-me sobre as pedras
Fiquei a ver a cidade.

As pessoas vão e vem, tão
Rápidas que, mal desaparecem,
Já despontam novamente:
Como são rápidas no viver!

Cá de cima, posso ver a vida:
Ela não me atinge.
Para estar ileso, fiquei só.
Optei pelas pedras e céu.

Amei fulana
Mas fulana vivia às voltas com amigos
Festas, coca.
Como podia amar fulana
Se ela nunca estava consigo ?

Sentei-me, ah, sobre as pedras
Qual o eremita, a ver
As pessoas que se agitam.
O sol alongou, recolheu e
Por fim, carregou a sombra.

Eu, às rochas, achando-me
Inútil por não feliz
Junto a fulana em suas
Aspirações mirabolantes
Amigos cheios de cálculos
Traduções e literaturismos.

Eu, diverso deles, simples soldado
A ensarilhar armas
Sonhando com fulana feliz.
Ela, entre as estrelas do generalato
Com suas drogas de raiz
A seu modo, feliz.

Ah, fulana que atraque
Em sonhos! Cá, nas pedras,
Longe do colarinho e fraque,
Abasteço-me de sonhos.
Vejo as pessoas aceleradas
Bastando-me isso para viver.

Sem que o dono delas perceba
Deixo as mãos fazerem poemas
Que escorregam pelas encostas
Terminando dentro da cidade
Que  vejo e sempre surpreende.

Ah, que inutilidade feliz!
Em cima, nada acontece
Que venha de quem me conhece
Ou de quem esqueci.

Estou à beira de tudo   
E atiro olhares ao mundo.

A ROSA PITHECANTROPA III


A ROSA PITHECANTROPA III
p/afonso

A Rosa atravessou o tempo.
Cegando-se para os novos homens
ela viajava.

A mesma Rosa de sempre
desde quando brotara da lama
e lava
varava os ares,
a Rosa determinada.

A Rosa bólido
desmemorizada
sem noções quaisquer
nada carrega, nada arrasta
em sua viagem sem paradas.
Suas pétalas selvagens, clavas
desconhecem arroubos, humanismos:
a Rosa Solitária.

A Rosa captadora
nao desdobra som
Do primeiro urro
ao último código
rompe simbolismos,
a Rosa lança.

Atirada contra a tela do tempo
rasgou naturezas vivas e mortas
desfez fundo e forma
teses e antíteses
cavalgando o ar
esporeando o espaço.

A Rosa rústica
modernizada
embrenhou-se nas máquinas
nos chips equacionadores
nos bips redentores
no verbo encarniçado.

A Rosa meteorítica
dos púlpitos
A Rosa mídia
florescendo na minha boca
A Rosa eletrônica disfarçando
a Rosa Pithecantropa.

A ROSA PITHECANTROPA II


A ROSA PITHECANTROPA II
p/afonso
                                               a rosa sem razão
                                               floresce porque
                                               floresce

A rosa roubou-me a fala
rompendo meus dentes com
suas pétalas de clava.
Enraizou-se-me pela garganta
emparasitou o peito
estendeu raízes entre os pulmões.

A rosa, espinhos nas gengivas,
sangrou minha saliva
adocicou meu paladar
rasgou a língua.

Os olhos ardentes, estúpidos,
emersos de espantos
rajaram-se de rosa:
o rosa da rosa vermelha

entupindo minha boca
com sua rude e simples força.
A rosa dos homens primitivos
na boca contemporânea.

Buscando sentidos
estimulando símbolos

a rosa louca
na boca pithecantropa.

A ROSA PITHECANTROPA I


A ROSA PITHECANTROPA I

p/afonso

Pelas alças da minha cabeça
sacudiram o vaso conturbado
As maos férreas, finas de louça
viraram o jarro.

Derramaram terra cinza
antiga, calcinada de muitas queimadas
Espalharam os torräes existentes
com pés ruins
para que ali nao nascesse mais nada
espontaneamente.

Olhos, adornos da peça ilegível,
entornaram líquidos
que davam seiva ao caule
da planta presa ao vaso.

De súbito, buscando ar,
fogo, terra e água
emergiram-me da negra boca

as pétalas murchas
da rosa pithecantropa.

A QUEDA


A QUEDA

medo dos meus medos
vazio dos meus abismos
se a ti me concedo
de mim me esvazio

Letra que me escraviza
Tinta que nunca seca
Lua que nunca dorme
No caminho do asceta

Bussola sem norte
Caminho sem fim
Atropelo de bestas
Para dentro de mim

 Acendo velas a todos
Protejo-me de ti
Que dos deuses ri
Filha de Caim

Os sonos que não dormi
Escondiam sonhos que perdi
Pelo medo de arriscar
Naqueles mundos encontrar

Rastro da tua passagem
Vestígio dos teus atos
Que me angelizariam
Na  paz dos teus braços

À PRIMEIRA VISTA


À PRIMEIRA VISTA

Quando tu me viste
Eu já sabia
Que me comerias
Que me beberias
Que te deliciarias em meus cheiros
Líquidos, vasos cheios
Nas noites quentes.

Quando puseste teus olhos
No meu peito, pernas
Eu já sabia que seria tua
Que dançaria na tua estranheza
Que derrubaria o que à mesa
Que te apunhalaria dezenas
Mas, mesmo assim, tu me terias
Enquanto rodopiasse a perna.

Quando me deparei com teus olhos
Acarinhando meus cabelos confusos
Observando meu rosto difuso
Fotografando minhas linhas
Algo me mordeu por dentro
Delatando-me tua tristeza
Tua venida incontida
Que minha vontade queria

Quando me viste, eu sabia
Tu já sabias que me comerias
Que eu não resistiria.
Quando é à primeira vista
Não existe valentia

A OBRA HUMANA


A OBRA HUMANA

Estamos muito cansados
De nossos trabalhos
Pelas notícias que levamos
Ao conhecimento de todos
A cada dia

Estamos, de fato, cansados
Nossos corpos fatigados
Reclamando repouso
Descanso digno e suficiente

Muito temos construído
E criado
Por acaso saberemos
Quantos quilômetros
De papel escrevemos
Nos últimos cem anos
Da história do homem?

Foi preciso muito escrever
Para chegar onde estamos
Os homens-papiros
Homens cansados

Cansados e escreventes
As mulheres andam grávidas
Os homens melancólicos
A pungência não cessa

Escreveremos mais alguns
Trilhões de palavras
Antes delas desistirmos.
Na certa escreveremos
Decerto, não desistiremos
Ou, quem sabe, sim?

Poderá o homem
Como é inconstante
Às portas do fim
Recomeçar tudo
Por isso andamos cansados
As mulheres grávidas
Pela incerteza do mundo

As mulheres aguardam,
Vigilantes, no canto da cama
A hora de deitar
Os homens, convalescentes
Tomam sopas
Ou fortes e resistentes
Trôpegos de cerveja

Sempre estão na batalha humana
De comer e procriar

Para alguns, finas iguarias
Outros, nojentas porcarias
Ou nada
Que o alimento é escasso
E grande a fome

Papel, caneta, palavra
A arma do homem.

A MOÇA DO ANDAR DE CIMA


A MOÇA DO ANDAR DE CIMA

Meus amigos andam apreensivos
e bebem em grandes quantidades.
Estão desesperados, e lhes digo:
Não há como filtrar essa idade

dela obtendo líquido cristalino,
puríssima beberagem benigna
que nos enlevasse em calma d’spírito
e nos desse paciência para seguir.

Meus amigos andam reclamando
revoltosos, falam insurreição.
Eu, quieto, fumo cigarros caseiros.

Eles têm razão para arrotar azedo,
quebrar o bar, trucidar a paixão.
Eu melhor me acomodo em meu canto,
acendo outro cigarro doméstico
e digo palavras de ódio e tristeza
pensando na moça do outro andar.

Meus amigos e eu estamos demais céticos
transbordando descontentamento e cervejas
Não nos cansamos, eu de escrever, eles de falar.
Enquanto discuto da infiltração
de outros segmentos no partido
rogo a Deus sua intercessão
dando fim ao assunto revivido:

O governo traiu as bases,
ganhou a eleição e traiu os companheiros.
Lembro-me de 30 moedas e Judas de fraque.
Nós, juventude socialista, puro desprezo.

É preciso coar, d’entre nós, os chaguistas,
estes são os piores, câncer em crescimento.
Depois os outros, purificar a alma social.
Lembro-me da morena do andar de cima
De quem não sei o nome ou no. de apartamento
e diria: camaradas, necessitamos mudança total.
Mudança de bases, de ídolos, de aspirações
renovarmos o estoque de ideais;
curemos as feridas criadas pelas traições
e reunamos o que resta intacto.

As palavras que diria descem com cerveja
e penso: no fim da vida serei, realmente, insípido.
Por enquanto estou purificando o que é daninho
buscando um eu de maior lucidez e clareza.
A moça do andar superior não passa
Os amigos andam muito desconfiados.
O remédio é pedir uma cachaça
subir e crer estar muito preparado
para os sonhos e pesadelos
com os amigos vestidos de medo.
E comigo: indecência que desconhecia
ansioso pela moça do andar de cima.

A MESA


A MESA

Esta mesa diária
tirada da mais frágil madeira
detém uma magia:
transformar trabalho e suor em besteira

Entro, inutilizado, na pele do funcionário
e eis o lobo disfarçado
na mais doce presa:
-Bom-dia, senhora, é um prazer!
:o homem detrás da mesa

Fatores divisórios e multiplicativos
são a grande expectativa
do dia sem valia, repetitivo
Salários pagando a nulidade
de um mês de covardia
Tantos homens escorados
na tanta comodidade
de não ser e estar
de não ser e ter
com que pagar os débitos mensais

Homens que estão para nascer
hão de sentar-se nesta frágil mesa
que faz do poder de fazer, uma besteira
acumpinzando vidas inteiras

A MÁQUINA DO MUNDO


A MÁQUINA DO MUNDO

De sentado sobre a máquina do mundo
as estrelas são ridículas.
As mãos sobre o aço
a cabeça sobre o universo.
Respirar difícil
dando entrada ao carbono
ferro, acetatos,
plásticos, molas, transistores,
circuitos que se integram;
velas, ejetores que se acoplam
ao corpo que quase pensa.

Aspirar profundo.
Óleos e graxas e antiferruginosos
orquestrando a odisséia mecânica
que faz maravilhas nos deltóides
apoiando o corpo que se ergue.

Softkind, hard world machine,
carne macia engrenada em primeira
que arranca para sentir
a brisa alheada que sopra
na máquina do mundo.

A eletrônica rege a mecânica
das mãos que se socorrem
imitando a máquina do mundo
reinventando tudo.
Sem sentido o homem se move
cheio de idéias na gaveta
e inventa outras maquinetas.

Andando sobre os trilhos onde
corre a máquina do mundo
o homem pensa suas secreticidades
aspirando borracha e fuligem
que seus filtros excretam vertigem.

Reinando sobre maquetes
o invento homem cresce.
Onde olha, apruma-se
a sombra de uma criatura.

Apoiado na macia embreagem
constrói novas nescedades
até que um dia perceba
que as coisas não mais
dele necessitam para se articularem,
engrenar e partir
sem sentido, manutenção.

E quando se puder seriar
pastilhas de alma para equipar
os comandos principais
haverá criaturas no céu
e criações bem pouco originais
a maquinar nova invenção
desnecessitada de coração
para funcionar,
fazendo bem melhor o mundo
logicamente programado nos disquetes
acoplados às aortas desemocionadas
acessadas por memórias terabaitificadas
que equacionam tudo
nas lembranças matemáticas.

Enquanto isso
no edém celulótico
os santos inventores
esfarelam esquecimento.

A MÃO QUE ACENA


A MÃO QUE ACENA

Toma essa mão que acena adeus
que desentrava toda a tristeza do mundo.
U'a mão pálida
um olhar soturno. E toda a tristeza do mundo.

Mergulho meu dia na luz malsã do mercúrio
passando o dia todo, todos os dias
passando por mim,
pensando que passo no mundo.

Não! Não farei como os poetas abnegados
que deixaram nomes encravados em placas
largaram obras belíssimas aos olhos do mundo.
Passarei em claro, deitarei em escuro e terá sido tudo.

E será tudo passar assim pelo mundo?
Se olho, não vejo; se vejo,não escuto.
Se amo não odeio; se quero, discuto.
Discuto comigo nas serras da minha cabeça
procurando caminho na aurora
aurorescendo que esse caminho aconteça.
Que aconteça de repente, feito nascimento
para que todos os caminhos desapareçam
só restando um caminho
e eu seja criança que se alimenta
de um caminho que a abasteça
que me faça dono do mundo,
senhor das coisas e da razão.
Criança vestida de homem
posando para retrato no jardim
enquanto espocam as luzes dos dias na sala.
II
AH, toma essa mão que acena adeus.
Repousa todas as mãos e restará essa
que desentranha toda a tristeza do mundo.

Em casa, escutando sons familiares
louças que entretinem, água que jorra
parentes que falam ...Essa é toda a vida.
Mas terá vida essa vida de família pelos ares?
Será vida acalentar nesse quarto o sonho da vida?
Será vida amassar mil papéis da vida?
Escrever mil linhas e chamá-las vida?

O que será viver se passo em branco
todos os meus dias? Não altero nada
não provoco nada, não amo nada
sinceramente. Desejo mil coisas
e passo por elas, tão perto,
que meu desejo fica contente

e ri meu desejo em minha boca
e presto atenção no gato do hotel
na senhora que lava o rosto na pia na área
na menina que grita mãe!
nas danças de rua nas portas dos bares
Atencionado a tudo, estaciono
paro, mole e parvo, à beira de tudo
e não mudo nada, nada mudo
Por isso,
toma essa mão que acena adeus
pergunta a ela
se é viver passar ao largo do mundo.

Mas pergunta ríspido e forte
que essa mão tonta
às vezes faz-se de surda
para passar sem resposta
a tantas perguntas absurdas.
III
Toma essa mão que acena adeus
Reconforta-a no desenho do teu seio
aqueça-a com o calor do teu corpo.
Não tenha medo do homem atrás da mão !
O homem é uma coisa de pó
finíssimo, que toma a forma de jarro
onde se derrama uma gota de poesia.
Forma-se o miraculoso barro

d'onde surge essa mão
que se levanta do pó para tornar-se mão
para acenar adeus à própria vida
ou a vida do próprio irmão.

Quantas vezes o homem detrás da mão
bem oculto pelas falanges aneladas
esteve louco de tanto olhar
e não ver outra mão?

Eram jarros sem pingo de poesia
que marchavam lá fora
rolavam, chocando-se com tanta força
que rompiam espalhando o pó
Pó tão espesso, tão pesado
que logo tomou a cidade
cobriu o céu até não se ver estrela.
O pó alevantado não assentava
Tranquei-me em livros, armadilhas de amar,
em corpos frios de copos vazios
cofres antigos de segredos perdidos
Mas o pó achou-me
A poeira pesou meus ombros
Eu a respirei
Quando abria a janela, não pasmei:

estava infecto, imundo, não ventilado
Aquele pó era o mundo
e o mundo não cabia no vaso.

Toma, urgente, essa mão que acena
Beija-a, abraça essa mão que não repousa
que insiste acenando adeus
coberta de um pó que não se afugenta.
IV
Oiço tantos sons familiares
o relógio, a buzina, o assobio desafinado
os passos da menina, o grito do soldado
Nessa janela, abismado
confirmo com meus olhos
que minha família está pelos ares
Durmo preocupado
sonhando com o pó envenenado.
V
Vamos, toma logo essa mão
não a deixa ao acaso
tentando erguer-se da mesa
estando o corpo anestesiado.
Não te apavore, amada, não te apavores!!
Hás de ver tantas mãos acanhadas
que hás de implorar pela minha mão que te acode
empurrando teus passos pela estrada.
Minha mão, no silencio da chuva que desaba
está fria, morta, quieta
lutando contra o vício que a descarna.
Minha mão não quer ser poeta
não quer o formol das estantes
não anseia taças
póstumas pousadas na sua palma sem semblante.
A mão quer a paz dos arvoredos
quer o canto das aves trinadoras
o vôo da rapina mais absoluta
a envergadura de asas perfeitas
Minha mão quer dormir um sono tranquilo
sabendo que a poesia pulou o muro
saiu do quintal esquisito
e veio cá fora respirar ar mais puro.

Minha mão quer liberdade
quer justiça.
Uma justiça sem mãos
sem crinas
Minha mão que acena adeus
não quer abrigar sonhos em sua morada
Não quer estalar patíbulos
não escalar horas marcadas

Minha mão quer ser amada!

Quer que tu a toques com cada dedo da tua alma

Minha mão que acena adeus
acena a Deus
que do longe das estrelas acena duas mãos perfeitas
à minha mão deformada.

A LONGA VIAGEM


A LONGA VIAGEM

Um Cabral entristecido observa o horizonte.
Fura-buchos surpresos interrompem o vôo
para observar a nau repleta de infantes.

Os marujos, parvos de escorbuto,
sem a certeza endurecida do Capitão,
sonham com as moças do Velho Mundo.

Pero Vaz de Caminha, n'outra nave,
acaricia a pena que fará história
sem qualquer paixão além da verdade.

O Padre Frei Henrique, humildemente,
na solidão do convés em chamas,
imagina como trazer Deus à nova gente.

Pedr'Álvares de Cabral, sem sonhar,
sabedor da responsabilidade que encerra,
entende os sinais das gaivotas e do mar.

Sorri, o solitário, já degustando a conquista,
deixando a proa bem antes que o atalaia
rasgue o ar com o grito de Terra à Vista!

A morte, que visitara a alma da marinhagem
entenebrecida, abala-se par'outros sítios
espantada por repentina alegria selvagem.

Sancho de Tovar, tem barba cerrada
que cofia repetida e lentamente
enquanto a El Rey puxa a esquadra.

São treze as naus, mil e quinhentos os homens,
muitas as armas, grande a fé e pouca
a caridade cristã que o ouro ofusca e consome.

Comanda a Anunciada, Nuno Leitão.
Ela tem em seu bojo os Franciscanos Gaspar
Francisco, o músico Masseu e Frei Simão.

Onde a espada se levanta, Deus se apresenta.
Para o futuro Bispo de Ceuta, marujos e guerreiros
a fé sem canhões não se sustenta.

Açoitada pelos ventos, aguardava a capitânea,
notícias de navios menores
em expedição pela vasta faixa litorânea.

Nicolau Coelho, mau aluno das lições de Colombo,
observa o inconcebível pela Europa:
homens e mulheres em pelo, alegres, sem assombro

Quando os singelos encontram o obstinado Capitão
deparam-se com esplendoroso Comandante
que traz ao pescoço mui reluzente cordão

que a luz das tochas alumia.
O inocente vê a burilada peça e mostra a terra.
É ali, na Capitânia, que a dor principia.

Sem saber que já era o Dominado
e que aquele que o presenteava era o seu Senhor
o antípoda atiça a cobiça da Santa Sé e do
Reinado.

Para que partira do Tejo essa esquadra
a não ser para ir além das fronteiras,
angariar ouro e conquistar almas?

Acreditava ser Deus o que via ali?
O aborígene, sem o saber,
estava frente a frente com Abaçai.

Agora é acabada a aventura, percebe Pedr'Álvares
quanto tem à sua frente aquela cabeça encocorada
Uma tristeza singra sua alma; ânsia outros mares.

Viver tudo de novo.
Recomeçar a luta solitária contra todos
com o denodo do primeiro dia.

O que alimenta o Senhor das almas
de todos esses homens não é fé ou riqueza
e sim uma pureza que com nada se abala.

Enquanto, para o índio que se espanta
inicia-se a história da dor e submissão
para Don Pedro é finda a demanda.

Quem se recolhe ao camarote e suspira
é um homem cansado defumdo acjma
que a marinhagem não reconheceria.

A FALTA


A FALTA

A falta que amo
Adormece em nácar
Desperta sob marfins.
A falta hedionda que mata
Dorme ao meu lado, impune.
Incólume, na distância do
Meu desejo.
Pela minha falta de ti
Calculo tua falta de mim
E morro pensando que morres
De minha saudade de ti.

A falta que amo tanto
Sussurra seu nome nas conversas
Dos amigos; abraça-me
No vazio do abrigo.
A falta, que é tanta
Cavalga-me em leitos em cio
Sob o som de mil chicotes
Em noites de trêmulo pavio.
Noites a fio.

Desafio a falta que não sei se me ama
Na minha falta, que ama.
Desejo-a em todas as minhas palavras,
No leito imenso dos solteiros.
Sob edredons em desalinho
Na feiúra do linho,
Quando penso na blusa
Da sua pele morena
Me abraço sozinho
Desespero solitário.

Ardo em outros corpos
Bebo outras bocas
Aceito palavras
Mas não perco o senso
Que reside na falta
Que amo.

Topométrico, meço minhas subidas e descidas.
Faço mil cálculos sem obter a medida
Exata da falta
Que não sei se me ama.

Assalto mil castelos
Atravesso os inimigos
Com a espada do silencio.
Lanceio meus amigos
Com desejo enorme da falta,
De tão imenso.

Ela ressona em azuis
Cavoucando meu abismo.
Conduzo meus demônios e archanjos
Para o pasto verdiço
Como fora apascentar
O desejo da falta que angustio.

A falta retoma a jornada dos anos.
Prossegue comigo, massacrando-me,
Desfazendo cada carapaça, armadura
Da sua longa pele moura
Renasce meu desejo infinito.

A falta me rouba o tempo,
A respiração, o sono, o amor.
Ela levou o amor.
O amor foi, cordeiro,
Ao chamado da falta.
Correu ao seu encontro
Como se ela fosse a presença
Que ama. E não falta.

O que ama a falta, soluça
Na pele escura da blusa
Da falta obscena.
O homem acena à falta
Que não ama: recusa
O que ama na falta da cor
Além da bruma, blusa,
Que nem sei se ela usa.

A FALTA QUE MATA


A falta me obriga ao caminho inverso
Penetro mais e mais em mim à procura de ti
Como se fora tu parte inescusável, órgão, nervo vago
Que manda o afogado aspirar o que finda.
À medida em que descubro o universo
Que o amor construiu dentro de mim
A ebulição desordenada dos hormônios
Que detestam as ausências que os desequilibram;
As sentenças de morte que o cérebro acha perceber
Respondendo com perigo para o corpo que já cede
Às tantas investidas, adoentando-se tristeza,
Vou entendendo que o amor não vive da presença
Mas da certeza de que não estarás ausente.

O amor é viciante. A síndrome de abstinência
Revela-se na insônia pela tua falta,
Nessa morte que não mata, mas que ameaça
E suspende qualquer expectativa de vida.
Sinto no corpo, já involuntário, um pedido:
A certeza do afago, clemência de um sorriso
Que afaste a duvida de estar, ou não, vivo.

A falta é mensagem de morte que o sentimento envia
Enganando o organismo que se surpreende:
Células enlouquecem, neurônios se perdem
Radicais livres oxidam núcleos inocentes.

O corredor da casa se alonga ao infinito
Que eu, prostrado, não consigo atravessar
Para socorrer-me nas lembranças que aliviam
Todos os sintomas de morte urgente
Que a tua falta constrói meticulosamente:
Cartas, fotos, cheiros que medicam.

O amor é droga que estabiliza as energias
Normaliza as sinapses que acalmam
Todo o organismo que depende da tua presença.

A falta enlouquece meioses e mitoses
Que multiplicam células anômalas
Desesperadas que inventam doenças
Que os médicos investigam, classificam;
eu entendo os males como fruto da ausência.
Os diagnósticos, após anamneses, exames, positivam
Recebo sem temor guias azuis para medicamentos
Que, asseguram, aliviarão dos sofrimentos

As farmácias não vendem teu cheiro em essência
A serotonina dos teus braços me cercando de felicidade

Carrego para casa os placebos aviados pela ciência
Consciente de que minhas dores se chamam ausência
O sofrimento que aos poucos impede de viver
Prova que o amor que ama é o que faz sofrer
Vírus, achega-se ao outro, engana linfócitos T
Reproduz-se aceleradamente em cada núcleo
Espalha-se pelo corpo enganando a razão:
O amor, contrariando poetas, não vem do coração.
Entrou de ti em mim, poros, tato, visão
Enganou os sentidos, envenenou as certezas
Multiplicou-se tanto que existes mais em mim
Do que poderia supor. Ou permitir.
pula dos poros para as veias
invade o corpo que incendeia
exigindo doses maciças que aliviam
de uma vida inteira sem existir.

Sentado neste escuro, olhando a cidade
Vou entendendo, resignadamente,
que me viciei em ti, esqueci de mim
que sou capaz de qualquer loucura
para me drogar novamente
com teus sorriso, teus carinhos
que o corpo chama de felicidade

À ESPERA DE DEUS


À ESPERA DE DEUS

Com os olhos borbulhando
Sem conseguir evitar olhar
Espero, noite após noite
Que Deus habite este lugar

Um Deus amplo, acolhedor
De braços longos e quentes
Que abrigue toda essa gente
Faiscando  de pavor

O medo de estar vivo
O medo de estar sóbrio
O medo de mais um dia
O medo de todos os dias

Em tão rápido passar
Apenas riscam a vida
Crendo-se sempiternos
Correndo a coxia

Esperando Deus em sua chegada
Fico, o parvo, observando
Os homens pela madrugada
Como tochas se apagando

O velho que puxa a carroça
A mulher que serve o café
A moça na janela do trem:
Rosto emoldurado em ferro

Fumaça, sonhos e aço
Eis a salvação
Todos à procura de abrigo
Aguardando revelação

Com seus instrumentos tortos
Vão construindo suas certezas
Rolam dados em busca da sorte
Que não os quer por consorte

Canso-me de esperar por Deus
Observando meu descrédito
Ele sequer se ergue
Quando meu coração se verga

Quatro cadeiras na casa
O homem se senta
Separado do ser;
A razão e a emoção descansam

Na cama, apenas o corpo
Peso, volume,  massa
Guardado por seus apetrechos
Sentados, insonos, de guarda

Sem êxtase, o gozo jorra
Para que a vida tenha forma
Antes que o cansaço me vença
Ofereço-me a Deus em oferenda.

A DOR CONFESSADA


A DOR CONFESSADA

As palavras são de todos
Que o poema não é meu
Mas a dor, essa tristeza
Somente a mim pertencem

Uma solidão que escraviza
Escrita em esperanto
Para um amor sem esperanças
Que ainda exala seus encantos

Nas ruas, sou o branco no negro
Grão de areia no deserto de Gobi
Apátrida sem eira que espera do céu
Quem fale sua língua e o console

A casa tornou-se sarcófago
Onde se conserva o corpo
De quem há muito está morto
Aguardando futuro próspero

Essa coisa que me toma e leva ao céu
É pleno sofrimento de um desejo
Que não me tomba, não me descarna
Mas tolhe minha vista com seu véu.

Um amor que me tirou a razão, a vida
Que me roubou as sensações
Transformou-me em cousa insípida
Que não sabe expressar as emoções

O riso difícil, o rosto de pedra
A palavra escassa, a eterna espera
As mãos de estivador, ombros rochosos
Apenas para fazer frente ao que o espera

Um homem forjado no breu
Ferido de morte que sobreviveu
Que devastou seus inimigos
Deliciou-se com perigos

No intento de morrer de uma vez
Foi sobrevivendo a cada golpe
Como se o amor fosse torturador
Para mantê-lo vivo sob seu chicote

Com o tempo desesperado passando
As esperanças acenando mãos tristes
Tornou-se objeto inventado dos sonhos
que tivera de um amor que ao tempo resiste

As letras a todos pertencem
Que o poema não tem dono
Mas a dor, a esse direito eu reclamo
Que ela é minha; não a abandono

Não poderia viver no mundo dos felizes
Não caberia no espaço dos civilizados
Não teria lugar para mim na alegria
Que meu coração foi do corpo separado

O que minha mão escreve
O corpo desconhece.
As palavras que confesso
Minha vida não esquece.

Essa tristeza sem igual, sem propósito
Essa imagem que guardo de ti
Esse desespero para que chegue o fim
E finde o amor por quem não mora em mim.

A DONA DO POEMA


A DONA DO POEMA
 HL

Festa na superfície.
Junto aos vasos quebrados
As raízes expostas
Com um raio de sol
Por testemunha do ato

Junto à janela, sentada
Em uma cadeira de pérolas
A menina escreve poemas
Lança além da janela a alma
Que brinca de fugir dela

Alheia a qualquer comércio
Ela escreve o que só ela
Pode entender e todos
Passearão na superfície
Em dia de quermesse

O engenho se move

O pensamento  vai longe
Buscar a palavra certa
Que mora em rua deserta
Em casa pequena
De grandes janelas

Olhos enormes espreitam o dono
 da casa que estende a mão  pela fresta
 Assopra  a poesia que nela havia
Para alegria da menina em festa
Que reduz a termo o ser poeta.

A DIVINDADE


A DIVINDADE

Do amor tanto amado
Nada que lembre restou
Sequer um 3x4
Que o novo amor rasgou.

Passaram os anos, lépidos
Para mim, rastejantes
Contigo em meu ventre
No olfato, na procura incessante.

Tua imagem, ícone pleiteando parecença,
Jamais encontrou sorriso igual,
Jeito semelhante, carinho assemelhado.
Eu, carregando a cruz da tua ausência.

As músicas, as horas, a companhia,
Nunca mais foram de sacio.
A cama, sepulcro vivo de coisa viúva
Jamais se conformou com o vazio.

Carrego esta tua esfinge às costas
Como fardo que não sei abandonar.
Onde quer que pouse, pare, descanse
Eis teus olhos a me passarinhar.

Com tanta coisa para viver
Fico embrulhado no passado
Da tua pele; no calor do abraço
Que nunca mais, tão terno, encontrarei.

 Carregando e amando esse fardo
Vou safando-me dos dias amargos
Que passam ferozes, arrancando nacos
De carne passiva que apenas ama no passado.

Talvez, quem sabe, um dia, pode ser
Encontre alguém que não seja você
Que me atraia os olhos de repente
Tornando novamente o objeto em gente

Se, acaso, ventura, tal se der
Poderei arriar teu peso de mim
Aliviar-me da carga que carrego
Odeio, desprezo, mas não nego

Que o teu amor, minha heresia,
Provou ser Deus uma mulher.

A CASA


A CASA

De sobre o promontório
a casa é minúscula
liliputiana
À medida que me aproximo
percebo a amplidão do sítio
a fortaleza das colunas
a firmeza da amarração
o esmero no acabamento
o conforto da varanda.

Circundo a construção, admirado.
A mão, nada subalterna
torce a maçaneta azinhavrada.
A luz do dia fulgura nos cômodos
vazios, enche as paredes nuas.
Dentro da obra inacabada, assusta-me
a pequenez do arquiteto
que abusou do excesso em ciência
para estilizar o que é rude
como soe a toda harmonia.

Algumas portas não se abrem
atiçando o rubor da curiosidade
até que se a molde em conformismo
muito embora se possa tentar adivinhações
baseado no conjunto já visto
da obra por terminar.

Tento definir o que vejo
E todas as palavras são vazias.
Inúteis as canetas.
Como se fora me sufocar
ao ouvir a flauta de Pan,
desando a descerrar janelas possíveis
escancarar as portas que m’as permitem.
Desabalo pelo corredor
até alcançar o alpendre
onde desmonto calado e imóvel.

Aboleto-me ao sol retirante
aninhando-me no aconchego
de um coração desencantado.

Na modorra, no vazio inútil
de gestos e palavras
apenas contemplo, sem músculos
o que construí de mim
enquanto desvendo outras casas
que vão surgindo ao longo
com outros eus a desmontar nas sacadas.

A BUSCA


A BUSCA

Não procures poesia em nada,
Minha cara
Que não há poesias em coisas,
Em objetos, panfletos.
Homens, vivos ou mortos
Morrer por ideais ou idéias
Nada se constitui em/de
Poesia.

Não caces a poesia
Com as armas dos homens
Que ela não tomba
Como a caça na mata
Nem consagra seus dias
À lide do caçador.

Não vejas poesias nas faces
Dos que andam nas ruas
Envolvidos por suas solidões
E tristezas imediatas.
Não lhes veja poesia nas faces
Posto não ser a poesia
Utensílio, rouge ou rímel
A sombra nos olhos.

Não trabalhes a poesia em tua
Mesa, onde confeccionas o teu pão
Que, assim, destitui-la-ás
De todo sentido e perigo.
Não confundas a poesia dos dias
Com os deveres e obrigações
De esposa diária, mulher noturna:
Poesia não carrega anseios de orgasmos
Não procria poesias.

Não, nunca as poesias.
Nada, nada nela.

Então, que faço eu,
Mulher solícita,
Nos papéis e folhas soltas
Por dentro das gavetas
Cheirando a alfazemas
Para evitar as traças?
Construo intimas inutilidades?

A ÂNSIA


A ÂNSIA

Amo, na distância, um amor
que não será amado quando perto.
Ao alcance do tacto, do beijo,
esvanecer-se-á e será reles desejo
que pela manhã deixa cheio o cinzeiro.

Amo a distância que dele me separa
como o próprio amor que a ele dedico.
Muitos são os silêncios em minha alma,
como são muitos os passos de toda uma vida.
Em todos esses silêncios há o amor,
como nos passos.
Há amor nos tendões, nervos, ligamentos
sangue, pele, pelos tudo é amor, posto
não haver pensamentos em quando atiro
a perna à frente, à frente, e nos silêncios.

Se puder tocar o objeto do amor, de que vale o amor?
Se posso dar fim à ânsia, de que vale o sacio?
-Ser apenas um corpo vazio a bocejar no escuro?

Ah!, como são reles os que se atiram a findar o amor
como se fosse ódio o que sentissem e fosse
amar estar vazio: Lata de atum no cesto da cozinha.

É preciso amar o amor como se fosse medo.
Evitar a satisfação; ansiar e mais amar a ânsia
para evitar que se aproxime o corpo do vazio.

Quanto mais quero menos esqueço o desejo
e adoro o que amo.
Esvazio-me de mitos
quando amo  ando leve, atirando olhares
semprenovidades ao mundo que vejo.

Extensos são os desertos de minha alma,
com muitas construções a disfarçar o vazio.
Nesse deserto, quando chega a noite
e a lua plena, o vento traça figuras na areia.
Muitas são as figuras traçadas em meu coração.

Os sentidos são estúpidos. Estão explodindo, exigindo,
tornando-me louco por visões, audições, gostos
que me esvaziem do amor que sinto.

Amo tudo o que está longe.
Se vejo pedras, sou pele; se sou algas, amo o deserto.
Amo a impossibilidade do amor
como amo o amor.
As coisas que vemos são puramente coisas,
não possuem encanto.
Quanto maior o conhecimento dos símbolos,
menor a ânsia. Quanto mais conheço mais padeço
de desamor. Mais exijo conhecer para menos
me encantar ou procurando algo que não
entenda para a esse me entregar e amar.

Amo as crianças quando me perguntam
"o que é isso, aquilo?" e me detesto ao responder.
Quanto mais sei menos amo e busco, cocaína,
maiores quantidades de inusitados
para, enquanto não os entenda, amá-los.

Quanto mais conheço, compreendo, mais endureço
meu coração, minha'lma e mais sofro.

Quanto mais entendo, mais disfarço os desertos
de minha alma, mais afugento o vento,
mais escorraço Deus das minhas dunas.

A cada dia mais vejo e menos percebo.
Em breve de tudo terei ciência e chegará a hora
em que o deserto será tão extenso e irreconhecível,
o frio tão intenso que o coração se negará
a continuar traçando figuras ao vento.

Quando chegar esse momento, terei medo
e não mais poderei amar o que desconheço.

1984


1984

Corações de quartzo
Digitais
Cronométricos
Metais
Almas de alumínio
Eletrizadas placas
Doidos diodos
óticas fibras despóticas
Ruas projetadas
Solos metálicos
árvores acrílicas
Pássaros programados...
Engrenagens de aço
Canoros rôbos do ar
Masterizados

Poesia computadorizada
Literatura morta
Línguas entrevadas
Sonhos reais à noite
pelas memórias das
máquinas lubrificadas
Naves a anos-luz de velocidade
Homens estáticos no tempo
Seres sem nenhuma gravidez
ou gravidade...O pensamento
lido e decodificado em segundos

(Usinas ao fundo
energizando a inerme
máquina do mundo).