quinta-feira, 22 de setembro de 2011

OUTRO


Não sei sentir. As alegrias
Em mim ricocheteiam.
A racionalidade que orgulhava
Exasperou os sentimentos
A falta de um abraço quente
Calor puramente humano
Congelou  o que fervera

Não tenho tempo para amar.
O mundo dos homens flui
Para dentro de mim
Arrancando lascas, nacos
Na medida em que passa
Resfolegante pelos sentidos
E, em muito, pelos ouvidos.

Só consigo ser no ideal
Não comporto o real
Sou o que faço parecer
Olhando com descaso
Para o que pareço
Enquanto  desconheço
O visto no espelho.

Querendo entender a vida
Compreendi tudo
Menos o que era humano
Menos o que era quente
Injusto, porém quente:
Optei por ser morno
Imperfectivo, mediano

Viver em primeira pessoa
Foi deveras enfadonho
Ser o justo, a lança
Era negar ar à idéia
Privar o pensar do som
Quando sou só palavra
Linguagem usando corpo

o que digo não faz sentido
Não sou quem traduzo
Não entendo o idioma
A vida, amigo, é literatura
Circunstância e metáfora
Quem nas brechas se declara
É outro: quem  escreve a carta.

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