CIRCO
No tempo dos dias tristes
Rio dos meus dias todos.
Rio da melancolia do hoje
E das que mais virão.
Ouço tiros despóticos
Debaixo da minha janela:
Noite de crime e notícia.
Realizamos o crime
Que confecciona a notícia
Amanhã saem à cata da notícia
E trarão crime
Não rio e não durmo.
Encharcado de manchetes
Pulo dentro da noite
Camelôs tremendo de frio
Crianças e homens e mulheres
E velhos e bêbados e tristes
E todas as outras espécies
Param e apreciam
Pastéis na gordura quente
Através do vidro do quiosque
Na Central do Brasil:
Contempla os pastéis, faminto!
Contempla a riqueza
Longe das tuas mãos e boca.
Contemplo a riqueza
Que contempla os pastéis
Sentindo vontade de sentir fome
Uma fome tão enorme de grande
Que um pastel a sustente de pé.
Medonha!
Trabalhadores de pés acelerados
De medo correm entre as barracas
Mergulham nos ônibus quando em quando
Que mergulham nos subúrbios
Ao Deus dará.
O medo abocanha calcanhares
Operários que pulam
(pastéis na gordura quente)
Mil milhões de peças de reposição
No parque industrial do crime.
Luminosos de Coca-Cola extrapolam
A sede nas gargantas podres
Que anseiam odres
De qualquer satisfação
Pernas de nenhuma estirpe
Cinturas rebolam doentes
Os desejos de todas as gentes:
Vem, mulher descomposta. Atira
Em meus braços ombros descarnados.
Corre, esquecido pela humanidade,
Aninha no meu ombro de touro
Todas as palavras que ninguém ouve.
No relento de 16 graus
A mulher dorme abraçada ao cão.
O mais franco postal do rio de Janeiro
À espera que dele alguém lance mão
Desamparados se amparam
Acendendo fogueiras com os restos
Da sociedade que associa em divãs.
Amargurada pela tristeza
A Verdade da urbe ruge
Selvagerias no século XX
Meninos que não crescerão nunca
Apreciam a evolução dos pastéis
No circo da fome. E riem.
Maravilhados pela mágica
Da massa branca, comentam,
Apontam dedos sujos,
Riem do pastel imundo
Que para eles já é brinquedo
Impossível Na vitrine do magazine.
Sonharão com os pastéis pulando,
Evoluindo na gordura, mergulhando
Boiando tostados
Até que a escumadeira
Encerre a brincadeira
E se dissolvam as crianças
Em bando e em panças
Pelas goelas da Central
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